quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PINHEIRINHO: UM MASSACRE QUE NÃO PODE FICAR IMPUNE

Fotos: Agência Reuters

No dia 22 de janeiro, tropas da Polícia Militar e contingentes da Guarda Civil Municipal atacaram a comunidade do Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos, estado de São Paulo.

Milhares de pessoas foram expulsas de suas residências, deixando um grande número de feridos e indícios de mortes. Posteriormente, começou a derrubada das casas.


A Polícia Militar obedeceu às ordens do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que por sua vez diz estar acatando decisão judicial de reintegração de posse, em benefício do proprietário do terreno, o especulador Naji Nahas, portador de imenso prontuário policial.


Os fatos são outros. Havia uma decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) que mandava suspender a ação; esta decisão foi desconsiderada pelo representante da justiça estadual presente à ação, Rodrigo Capez, irmão do deputado estadual Fernando Capez, também do PSDB.

Havia uma negociação em curso entre o governo federal, o governo estadual e a prefeitura; esta negociação foi atropelada pela violenta reintegração de posse. Os moradores já esperavam o pior.

Moradores da comunidade do Pinheirinho se prepararam para enfrentar a Tropa de Choque da PM/SP com paus, barras de ferro e facões

Os motivos da truculência: a negociação poderia resultar na aquisição do terreno pelo governo federal, o que causaria prejuízos políticos para o governo estadual, incapaz de resolver um problema social; prejuízos financeiros para o especulador Naji Nahas, que pretende usar o terreno para pagar dívidas; e prejudicaria também o prefeito Eduardo Cury, igualmente tucano.

Por isso a trégua foi rompida, por isto a justiça federal foi desconsiderada, por isto a Polícia Militar brutalizou milhares de pessoas, inclusive idosos e crianças.


O episódio revela mais do que a truculência militar, a corrupção judicial e o uso da máquina pública para reprimir trabalhadores e trabalhadoras em benefício de um notório corrupto. O massacre de Pinheirinho vem na esteira de outros episódios: Cracolândia e USP.

Fica evidente um padrão de criminalização dos movimentos sociais, padrão que faz parte da retórica e da prática dos governos tucanos desde Eldorado dos Carajás, pelo menos.

O padrão adotado pelo governo Alckmin, governador cujos vínculos com a Opus Dei são conhecidos, é o do governo “mão dura”, implacável com os de baixo, com os pobres, com os jovens, com os mais fracos. Que ninguém se engane: ligaram a chocadeira de ovos de serpente.

Está claro que a escalada de violência antidemocrática não será interrompida apenas com críticas. É preciso uma ação executiva incisiva do governo federal, tornando o terreno passível de desapropriação para fins de interesse social e tomando as medidas cabíveis contra as autoridades que menoscabaram da dignidade humana.

É impressionante como o poder do dinheiro de um empresário "ficha-suja" consiga prevalecer sobre o interesse de toda uma população, que ocupou um terreno apenas em busca de moradia digna. Isto é o que acontece quando poucos têm muito e muitos não têm nada.


Fonte: Direção Nacional da Articulação de Esquerda do Partido dos Trabalhadores
Editado e comentado por: Hugo Freitas

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Juiz nega pedido da defesa de Roseana Sarney e mantém audiência de cassação

Governadora Roseana Sarney e o vice-governador, Washington Oliveira

O juiz federal Nelson Loureiro dos Santos, membro efetivo do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão, negou, nesta segunda-feira (23), o pedido formulado pelo vice-governador Washington Luiz Oliveira para suspender a audiência marcada para o próximo dia 27, em que serão ouvidas as testemunhas de defesa no processo em que ele e a governadora Roseana Sarney são acusados de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2010.

Para o juiz não houve qualquer irregularidade na definição da data para a audiência nem na tramitação do processo. Ele refutou as alegações de que a redistribuição da Carta de Ordem expedida pelo TSE, após ter expirado o prazo de 60 dias para o cumprimento, tenha acarretado alguma nulidade. “Ao se examinar a tramitação da presente Carta de Ordem verifica-se que sua redistribuição foi medida que se impôs”, escreveu Nelson Loureiro.

A Carta de Ordem foi inicialmente distribuída para o juiz Sérgio Muniz, que a reteve por 60 dias sem providenciar a realização da audiência. Depois de remetida ao TSE foi novamente encaminhada ao TRE para realização da audiência no prazo de 60 dias, tendo desta vez sido distribuída para o Nelson Loureiro.

No despacho, Loureiro diz ainda: “em cumprimento de carta de ordem não existe juiz natural por distribuição, pois o juiz natural é o ministro Versiani, que conduz o processo e não o juiz do TRE, que apenas cumpre a ordem do TSE”.

O indeferimento do pedido de suspensão frustra a estratégia da defesa dos acusados Roseana Sarney e Washington Oliveira, que querem atrasar ao máximo a tramitação do processo. Na avaliação de advogados que acompanham o caso existe uma convicção formada de que a apreciação do processo no TSE tem grandes chances de resultar na cassação da governadora e seu vice.

Trama frustrada para adiar audiência

Na última sexta-feira (20), o vice-governador Washington Luiz Oliveira protocolou, no Tribunal Regional Eleitoral, uma petição com a finalidade de afastar o juiz federal Nelson Loureiro da realização da audiência do dia 27, que ouvirá as testemunhas de defesa no processo de cassação da governadora Roseana Sarney, por abuso de poder político e econômico na eleição de 2010.

O documento protocolado por Washington pedia que a carta de ordem do TSE voltasse ao juiz Sérgio Muniz. Tentativa essa frustrada, conforme decisão já relatada acima.

Como o processo tramita no Tribunal Superior Eleitoral (RCED 809), cujo relator é o ministro Arnaldo Versiani, foi determinado que o Tribunal Eleitoral do Maranhão ouvisse as testemunhas de defesa de Roseana Sarney, dentro de sessenta dias. No dia 01 de setembro de 2011, a carta de ordem do TSE (PET Nº 27311 – TRE/MA), chegou ao juiz Sérgio Muniz, que é filho do secretário adjunto da Casa Civil do governo de Roseana, Antônio Muniz.

Na véspera de expirar o prazo para cumprir a ordem do TSE, Sérgio Muniz, que havia passados 58 dias sem dá qualquer despacho no processo, “descobriu” que faltavam alguns documentos vindos do TSE. Nem marcou audiência e devolveu todo o processo ao Tribunal Superior Eleitoral.

O TSE, então, determinou o retorno da carta de ordem ao TRE do Maranhão, e foi redistribuída ao juiz federal Nelson Loureiro, que, no dia 14 de dezembro de 2011, designou a audiência para ouvir as testemunhas de defesa de Roseana para o dia 27 de janeiro.

O processo de cassação do mandato de Roseana Sarney e seu vice Washington Luiz Oliveira, por corrupção e abuso de poder econômico, movido pelo ex-governador José Reinaldo Tavares, já deveria ter sido julgado há muito tempo. Mas a Oligarquia Sarney tem usado de todos os meios escusos para retardar o julgamento, temendo aquilo que os especialistas chamam de uma “cassação certa”.

Apesar de toda a prova documental existente no processo do uso de recursos de convênios, (cujo montante chega a um bilhão de reais), com todo tipo de entidades, de prefeituras à associação de futebol de areia, para beneficiar a reeleição de Roseana e seu vice, seus advogados pediram para ser ouvida uma quantidade enorme de testemunhas de defesa (12) para provar que não houve abuso.

Farra de convênios

Através de seu secretariado, Roseana Sarney realizou uma farra alucinante de convênios eleitoreiros com toda espécie de entidades para se eleger ao governo em 2010. Foram realizados convênios com prefeituras, associação de “beach soccer”, associação de moradores, clube de mães, etc., culminando com a assinatura de mais de mil convênios somente no mês de junho de 2010, sendo mais de quinhentos deles apenas no dia da convenção que homologou a candidatura de Roseana, em 24 de junho, que garantiram sua “reeleição”.

O processo de cassação de Roseana Sarney, movido pelo ex-governador José Reinaldo Tavares, tem como maior fundamento exatamente a farra de convênios feitos pela governadora, com liberação de cerca de R$ 1 bilhão aos seus aliados. Recursos suficientes para a realização daquilo que foi o maior escândalo de abuso de poder político e econômico numa eleição já visto no Maranhão.

Mas o inédito desse processo, talvez único na história, é que a pessoa acusada de cometer um crime, a corrupção eleitoral e abuso de poder econômico – no caso, Roseana Sarney – faz de tudo para que suas próprias testemunhas de defesa não sejam ouvidas pela justiça.

Editado por: Hugo Freitas

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

GUERRA DAS MALVINAS: ENTENDENDO O CONFLITO


A Guerra das Malvinas foi um conflito armado entre Grã-Bretanha e Argentina, no começo dos anos 80, pelo controle de um pequeno arquipélago no Atlântico Sul, as ilhas Malvinas - conhecidas em inglês como Falklands.

Fonte: Google Earth

A região, situada a cerca de 480 quilômetros da costa argentina, foi ocupada pelos ingleses desde o século XIX e integrava uma parcela mínima dos vastos territórios que compunham o imenso império britânico. Após a Segunda Guerra Mundial, mesmo com o processo de descolonização, a região sul americana se manteve sob a tutela inglesa.

A Grã-Bretanha ocupa e administra as ilhas desde 1833, mas os argentinos nunca aceitaram esse domínio.

Confira abaixo dados estatísticos de 2005 sobre as ilhas Malvinas:

Fonte: Mundo Maps

No início da década de 1980, a ditadura militar que controlava a Argentina decidiu promover um plano de controle sob o território. Então comandado pelo general Galtieri, o governo dos militares argentinos se via pressionado pelos problemas sociais e econômicos que colocavam a população contra si, além do grave desrespeito às liberdades civis e aos direitos humanos. Dessa maneira, o plano seria uma forma desesperada de recuperar a imagem do governo por meio da guerra e unir a nação em um frenesi patriótico.

Publicação do Jornal "Clarín", de Buenos Aires, sobre o desembarque das tropas argentinas nas Ilhas Malvinas (Foto: abril de 1982)

Aproveitando-se da disputa histórica, o governo militar da Argentina lançou uma invasão às ilhas em 2 de abril de 1982.

Os argentinos tinham duas apostas: acreditavam que teriam o apoio dos Estados Unidos para reaver o território das Malvinas ou que os ingleses iriam abrir mão da ilha por meio de uma rápida negociação diplomática. Nenhuma das duas se concretizou.

A princípio, a invasão realizada pelos argentinos foi vitoriosa e resultou no controle da capital das Malvinas, Port Stanley. Com a conquista, os hermanos mudaram o nome da cidade para Puerto Argentino.

Enquanto o regime propagandeava sua vitória na mídia, os ingleses tentaram negociar uma retirada pacífica dos militares argentinos, o que não conseguiram. A guerra estava a caminho.

Forças aérea e naval britânicas cruzando o Atlântico, rumo às ilhas Malvinas

Mediante a negativa do governo Galtieri, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher ordenou a preparação das forças britânicas para um conflito contra os argentinos. Enviou às Malvinas uma força-tarefa com 28 mil combatentes - quase três vezes o tamanho da tropa rival.

Aproveitando dos acidentes geográficos que tomavam todo o arquipélago, os argentinos organizaram um contra-ataque aéreo comandado pela Fuerza Aérea Sur. Utilizando de mísseis Exocet, os argentinos conseguiram abater duas embarcações britânicas.

Navio britânico atingido por um míssil argentino

Apesar disso, as maiores derrotas argentinas aconteceram em terra, quando os britânicos não tiveram maiores dificuldades para vencer um exército numeroso, porém extremamente mal preparado.

E, ao contrário do que supunham os generais argentinos, os Estados Unidos não se mantiveram neutros. Resolveram apoiar os britânicos, seus aliados na poderosa aliança militar da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Fornecendo armas, os americanos deram uma forcinha decisiva aos súditos de Elizabeth II. Turbinados pelo apoio ianque, os britânicos bateram os argentinos em pouco mais de dois meses.

No dia 14 de junho de 1982, a Inglaterra tinha finalmente restabelecido sua hegemonia sob as Ilhas Falkland, nome oficialmente dado pelos ingleses à região.

Desembarque das tropas britânicas vitoriosas nas ilhas Malvinas em junho de 1982

Após o conflito, a galopante crise inflacionária – que então batia na casa dos 600% ao ano – e os movimentos populares contra a repressão militar causaram a queda da ditadura argentina. Em um brusco processo de redemocratização, os argentinos depuseram Galtieri e, no ano seguinte, realizaram as eleições que levaram o civil Raúl Alfonsín ao poder.

Na Inglaterra, o conflito fortaleceu a imagem política de Margaret Thatcher, que conseguiu se reeleger como primeira-ministra.

Principais eventos do conflito

1. A guerra das Malvinas começa para valer em 2 de abril de 1982, quando as forças navais argentinas tomam Stanley, a capital das ilhas. Em resposta à invasão, a Grã-Bretanha envia à região uma força-tarefa em meados de abril, cruzando 13 mil quilômetros pelo oceano Atlântico.

2. No dia 25 de abril, uma unidade britânica desembarca em uma ilha próxima, a Geórgia do Sul, que também estava nas mãos dos argentinos. Depois de breves combates, a Grã- Bretanha retoma o controle da ilha e começa a preparar o contra-ataque, adaptando equipamentos para receber armas da Otan.

Veja abaixo a esquadra militar de ambas as nações envolvidas no conflito:

Fonte: Mundo Maps

3. Ao mesmo tempo, os argentinos se preparam para interceptar as forças britânicas. No final de abril, eles posicionam a noroeste das Malvinas o porta-aviões Veinticinco de Mayo, levando oito caças-bombardeiros, seis aviões a hélice e quatro helicópteros, todos a postos para o combate.

4. A maior baixa argentina acontece no dia 2 de maio: longe da zona de conflito, o cruzador General Belgrano é torpedeado por um submarino britânico de propulsão atômica e afunda, matando 368 homens. Enquanto isso, nas imediações das Malvinas, os dois exércitos travam intensas batalhas no ar.

5. Dois dias depois, a resistência aérea argentina consegue uma vitória a oeste das Malvinas ao atingir o destróier Sheffield, matando 20 homens. Nos dias seguintes, ataques argentinos afundam mais quatro navios. Mas as baixas não conseguem impedir o avanço da moderna esquadra britânica, que se aproxima cada vez mais das ilhas Malvinas.

6. O avanço britânico se consolida em 21 de maio, com um desembarque anfíbio na costa norte da ilha Malvina Oriental. Enfrentando tropas mal preparadas e com armas antiquadas, os britânicos capturam povoados menores, como Goose Green, até cercarem a capital, Stanley. Em 14 de junho, os argentinos se rendem e a guerra chega ao fim.

Militares argentinos se rendem às tropas britânicas, pondo fim à Guerra das Malvinas

Armamentos e Saldo da Guerra Argentina x Grã-Bretanha

Argentina
10 mil soldados - 750 mortos

NO AR: A frota era numerosa mas antiga, composta principalmente por aviões Skyhawk da década de 60.

NO MAR: Inferiorizados, os argentinos só tinham um porta-aviões e submarinos a diesel, que possuem pouca autonomia embaixo d’água.

EM TERRA: A maioria dos 10 mil soldados não tinha experiência militar. Mal armadas e sem proteção contra o frio da região, as tropas protagonizaram rendições em massa para o Exército britânico.

Grã-Betanha
28 mil soldados - 256 mortos

NO AR: Os modernos caças-bombardeiros a jato Harrier e Sea Harrier eram poucos, mas rivalizaram com a numerosa frota argentina.

NO MAR: Além dos dois porta-aviões, o grande destaque da esquadra eram três submarinos de propulsão nuclear, que podiam ficar embaixo d’água por meses.

EM TERRA: Além de a tropa ter quase três vezes mais combatentes que a rival, os soldados britânicos eram todos profissionais e contavam com o moderno armamento da Otan.

Capacetes dos soldados mortos no conflito

Hugo Freitas
Com informações do portal Brasil Escola e da revista Aventuras na História (editora Abril)

POLÊMICA: Premiê britânico acusa Argentina de "colonialismo" por causa das Ilhas Malvinas

Ministro das Relações Exteriores da Argentina rebate acusação britânica sobre as Malvinas (Foto: AFP)

O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, contestou na última quarta-feira (18) o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, que acusou Buenos Aires de "colonialismo" por reivindicar a soberania das ilhas Malvinas.

"Qualquer país, qualquer povo, que conheça um pouco de colonialismo sabe que a Argentina não é um país colonialista", destacou Timerman em entrevista coletiva em El Salvador.

Na sessão semanal de perguntas na Câmara dos Comuns (câmara baixa do Parlamento britânico), Cameron havia acusado a Argentina de "colonialismo" pela histórica reivindicação de Buenos Aires sobre a soberania das Malvinas, dominadas pelo Reino Unido.

O ministro do Interior argentino, Florencio Randazzo, expressou também à imprensa em Buenos Aires que as declarações de Cameron "são absolutamente ofensivas".

"A Argentina defendeu por décadas que a única maneira de resolver a questão das Malvinas e a questão que reivindicamos desde 1883, quando houve a invasão inglesa, é através do diálogo e da negociação pacífica", manifestou o chanceler argentino. Ele lembrou que é assim que indicam "11 resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas e mais de 29 declarações do Comitê Antidescolonização das Nações Unidas".

"À medida que a Grã-Bretanha conhecer a realidade da América Latina, estaremos mais perto de uma solução", declarou o chanceler, que destacou que a reivindicação argentina se transformou em "uma causa latino-americana".

Fonte: Agência EFE
Editado por: Hugo Freitas

domingo, 22 de janeiro de 2012

REESCREVENDO A HISTÓRIA: "O Império Romano não acabou em 476", afirma historiador


O professor Chris Wickham, do Departamento de História da Universidade de Oxford, é hoje um dos mais respeitados estudiosos da chamada Antiguidade Tardia, período que marca a passagem da Era Clássica para a Idade Média. E determinar as diferenças entre esses dois mundos é a grande questão que orienta suas pesquisas.

Em 2005, ele apresentou o resultado de suas investigações em um livro que causou grande impacto entre os especialistas da área: Framing the Early Middle Ages: Europe and the Mediterranean, 400-800 (Enquadrando a Alta Idade Média: A Europa e o Mediterrâneo, 400-800, inédito no Brasil).

Wickham: “A mudança para uma forma de governo 'medieval' foi um processo muito mais lento do que os historiadores pensavam há 50 anos”.
(Foto: Phil Sayer/Univerdidade de Oxford)

Na obra, Wickham analisa as diferentes transformações pelas quais as várias províncias do Império Romano passaram entre os anos 400 e 800 para buscar novas respostas para uma velha pergunta que os historiadores se fazem desde o século XVIII: quando termina a Antiguidade clássica e quando começa a Idade Média?

Ao comparar a estrutura socioeconômica, o sistema de arrecadação de impostos e as formas de governo que vigoraram na Europa e no Mediterrâneo ao longo de quatro séculos, ele chega a uma conclusão que questiona a periodização apresentada pela maioria dos livros didáticos: segundo ele, o Império Romano não acabou em 476. Ele explica por que nesta entrevista exclusiva para História Viva.

História Viva – A maioria dos livros didáticos apresenta o ano de 476 como um marco para o fim da Antiguidade e o início da Idade Média. O senhor concorda com essa periodização?

CHRIS WICKHAM – Não, eu discordo por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ano de 476 é a data da queda do último soberano do Ocidente, mas o Império Romano continuou a existir, sem ruptura. A única diferença é que sua capital passou a ser Constantinopla.

No século VI, os imperadores romanos do Oriente continuavam a governar em um estilo muito parecido com o de Constantino no século IV ou mesmo dos imperadores pré-cristãos. Um imperador como Justiniano, que governou entre 527 e 565, tinha basicamente o mesmo estilo de seus antecessores dos cinco séculos anteriores. Além disso, ele governou pelo menos metade do antigo Império Romano do Ocidente, porque reconquistou regiões como a Itália, o norte da África e o sul da Espanha.

Em segundo lugar, não há dúvida de que o fim do século V assistiu à substituição do poder romano nas províncias ocidentais pelo de reis que comandavam exércitos formados por grupos germânicos vindos de fora do império. No entanto, mesmo não se autodenominando romanos, muitos desses monarcas continuaram a governar ao estilo romano.

A mudança para uma forma diferente, que poderia ser chamada de “medieval”, foi um processo muito mais lento do que os historiadores por muito tempo pensaram e não aconteceu em um ano, uma década ou mesmo um século. Eu vejo uma lenta mudança nas províncias do Ocidente, que vai de 450 a 600, aproximadamente. A partir de então, todo o mundo europeu pode ser chamado tranquilamente de “medieval”, com exceção das regiões que permaneceram sob o controle direto do Império Romano do Oriente.

HV – O senhor afirma que essa mudança é marcada por uma transformação do sistema de arrecadação de impostos. Como isso ajuda a diferenciar o mundo antigo do medieval?

WICKHAM – No Império Romano, o poder público – exército, sistema judiciário etc. – era financiado pela arrecadação de impostos, como acontece hoje. A coisa mais cara na época do Baixo Império Romano era o exército. E quando as tribos germânicas conquistaram as diferentes províncias do Ocidente eles passaram a financiar o exército de uma maneira diferente. Na maioria dos casos, eles davam terra aos soldados, em vez de lhes pagar com dinheiro. A ideia de um exército assalariado, portanto, desapareceu, o que acabou com a necessidade de cobrar impostos da população.

Isso é parte daquele lento processo que eu mencionei: os reis queriam cobrar impostos, porque todo governante gosta de ter muito dinheiro, mas, quando você não tem de pagar o exército, que consome 60% do orçamento público, os impostos se tornam menos necessários. Quando isso acontece, você não precisa de tantos oficiais e burocratas para organizar o sistema de arrecadação, e há uma lenta involução no grau de complexidade do Estado. Esse processo está quase concluído por volta de 600. Então eu acho que o financiamento do exército é uma das mudanças cruciais que aconteceram nesse período.

A civilização dos césares não desapareceu com os ataques dos povos germânicos, mas as invasões bárbaras marcaram o início de uma profunda transformação política e social da Europa. (Imagem: Museu Nacional Ulpiano Checa, Colmenar de Oreja)

HV – Como podemos interpretar as invasões bárbaras a partir dessa nova perspectiva do fim do Império Romano?

WICKHAM – As invasões bárbaras claramente aconteceram. Quando você tem um rei da Espanha que se autodenomina rei dos godos, ele é o líder de um povo que invadiu o império. E não há problema em dizer isso. Mas o rei dos godos poderia ter criado um sistema de governo mais próximo do romano. Ele poderia ter dito “eu tenho esse exército godo, eu vou remunerá-lo da forma que os romanos fazem, vou manter 100% do sistema econômico romano”. Os ostrogodos ainda fizeram isso na Itália por 40 anos, mas nenhum outro rei bárbaro tentou manter esse sistema, o que é muito significativo, pois mostra que o mundo pós-romano é diferente do romano.

É bem diferente do que aconteceu na China: todas as vezes que os bárbaros invadiram a China – o que ocorreu nos séculos III, VI, XI, XII, XIII – eles preservaram as formas de organização do Estado chinês e adotaram o estilo tradicional de governo. Assim, o Estado chinês mudou bastante ao longo do tempo, mas nunca se desintegrou. A via chinesa mostra, portanto, que, mesmo com invasões bárbaras, pode haver uma continuidade estrutural de uma determinada forma de Estado. É a descontinuidade que marca o Ocidente romano.

HV – A mudança no Ocidente romano, portanto, pode ser descrita como a passagem de um único Estado centralizado para um conjunto fragmentário de Estados?

WICKHAM – Exatamente.

Em pleno século VI, o imperador Justiniano governou pelo menos metade das antigas províncias do Ocidente. (Imagem: Basílica de São Vital, Ravena)

HV – Por outro lado, alguns historiadores, como o francês Jean Durliat, defendem uma continuidade do Baixo Império Romano até o fim do século IX. O que o senhor acha dessa tese, que se opõe à ideia da ruptura total?

WICKHAM – Eu acho que Jean Duliart está completamente enganado. É interessante, no entanto, que ele defenda a continuidade usando o mesmo tipo de argumento que eu mencionei. Ele argumenta que o sistema de arrecadação de impostos se manteve após a queda do Império Romano do Ocidente, o que é uma linha de pensamento útil, mas eu acho que ele lê as fontes de forma totalmente errada. Ele cria uma série de razões para se acreditar que as fontes que todos os outros pesquisadores acreditam tratar da posse da terra se referem, na verdade, à arrecadação de impostos. E ele não conseguiu provar isso. Eu acho que todos os elementos da sua argumentação podem ser considerados imprecisos, mas eu respeito a forma como ele argumenta.

HV – Então, apesar das mudanças de interpretação das fontes, nós ainda podemos falar da queda do Império Romano do Ocidente e das invasões bárbaras?

WICKHAM – Sim, podemos. Mas é um processo muito mais lento do que os historiadores pensavam há 50 anos.

Fonte: História Viva
Editado por: Hugo Freitas